Idioma de indígenas brasileiros desafia linguistas do mundo todo

A complexidade da linguagem do idioma falado por uma tribo indígena amazonense causa perplexidade no mundo acadêmico internacional. O professor ensina o que aprendeu o mestre ensina o que viveu? Quem é o autor desta frase? Algum filósofo hindu? Ela aplica-se ao pirahã? A linguagem como arte primordial e as infinitas conclusões dos apaixonados estudiosos. Sempre haverá mais uma. Veja esta: “O Princípio da Experiência Imediata”

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Gramática universal como herança genética?

Tomando como verdadeira a teoria popularizada pelo linguista norte-americano Noam Chomsky, todo indivíduo já nasce com uma gramática completa em seu cérebro, conhecida por Gramática Universal. Conforme vai conhecendo um idioma, a criança, instintivamente, resgata dessa gramática as regras mais adequadas à língua que está aprendendo. Assim, a famosa teoria de Chomsky desenvolve a idéia de que existem princípios gramaticais comuns a todos os idiomas. Ocorre que, justamente aqui no Brasil, a língua falada por uma tribo de índios amazonenses, os Pirahãs, não somente desafia a esse fundamento científico, como também tem sido alvo de infindáveis debates entre linguistas.

Linguista americano estuda complexidade da linguagem pirahã e desenvolve nova teoria objeto de muita discussão

Tudo teve início em 2005, com a publicação de um artigo de autoria do linguista norte-americano Daniel Everett, atualmente professor da Universidade Estadual de Illinois. Na condição de missionário na década de 1970, estava incumbido de catequizar a diminuta população Pirahã, composta por aproximadamente 300 integrantes. Mesmo percebendo fracassada sua missão original, Everett sentiu-se fascinado pela linguagem expressada pela tribo e resolveu estudá-la.

Entre as diversas peculiaridades descritas por Everett sobre o pirahã, destaca-se o fato de o idioma não ter designação de cores, utilizar somente três vogais e oito consoantes, desconhecer modos e tempos verbais, não definir números e, o mais espantoso, não possuir recursividade. Isto é, não formula frases inserindo-as umas nas outras,como se faz em estruturas oracionais do tipo “o pão velho do tio Antônio”. Existiriam, dessa forma, apenas formulações sintáticas simples, como “o pão do Antônio” ou “o velho Antônio”. “As sentenças dos Pirahãs expressam somente situações vividas pelo falante ou testemunhadas por alguém vivo durante a vida do falante”, escreveu Everett sobre sua teoria, que denominou “Princípio da Experiência Imediata”

Linguista da UNICAMP rebate e THE NEW YORKER publica

Inúmeras refutações surgem até hoje sobre as conclusões de Everett. A principal delas envolve a brasileira Cilene Rodrigues, linguista da Unicamp, que, em companhia de dois pesquisadores norte-americanos, publicou um artigo na revista The New Yorker, em março de 2007, contestando o que Everett escreveu a respeito dos Pirahãs. “É muito esquisito que alguns pesquisadores vejam a recursividade na língua e Everett não a enxergue”, declarou Cilene recentemente.

Segundo a revista Superinteressante, Chomsky, considerado o maior linguista vivo, mantém-se alheio à controvérsia e sugere a todos que prestem atenção ao e artigo de Cilene, pois não tem “interesse em jogar lenha em uma fogueira que nem sequer deveria estar ardendo”.

Não obstante os protestos da maioria dos especialistas em idiomas,  talvez seja cedo para dizer se a razão reside ou não do lado de Everett. Contudo, é certo que sua tese baseada em uma remota cultura indígena vem provocando enorme furor no meio linguístico.